Você acredita em fantasmas? Tem medo de assombração? Já sentiu um vento frio no seu cangote? Já teve certeza que alguém te olhava, virou e não tinha ninguém?

A moça da carta de hoje anda assustada. Passa por um momento decisivo. Não sabe que lado tomar. Até aí, nada demais. O que lhe assusta, além da vida, é a sensação de não estar sozinha.

A moça ouve vozes dentro dela. Como que intuição. Será só intuição, ela quer saber. Ou a manifestação de alguma doença mais grave?

– Tenho medo de estar ficando louca.

Há pessoas que alucinam. Vêm o que não existem, escutam onde nada fala. Há pessoas que deliram. Constroem pensamentos que vão muito além da realidade. A gente, que se acha normalzinho, também faz um pouco de tudo isso, às vezes. Não está, necessariamente, precisando de medicação.

A diferença entre a doença mental e a dita normalidade é uma linha fina, quase transparente, que é delimitada pela intensidade de dor e de sofrimento. Quando o sofrimento é tão grande que paralisa a vida, ali é preciso que haja uma intervenção psiquiátrica, medicamentosa. Para que a intensidade diminua e a pessoa consiga, minimamente, dar seguimento à sua vida.

No geral, impressões todo mundo tem. Quem nunca se virou na rua achando que tinha sido chamado e não foi? Quem nunca foi abrir a porta achando que tinham batido? Ou se virou para cumprimentar a pessoa que sentiu chegar e percebeu que ninguém havia chegado?

A impressão de que alguém passou rápido de um quarto para o outro, quando você está sozinho em casa? Não acho que sejam fantasmas. Nem que queiram nos assustar. De minha parte, a única certeza que tenho é que o mundo dos invisíveis é muito maior do que imagina nossa vã filosofia. Vou te contar uma história.

A menina pequenina apontava o canto do quarto e repetia:

– Olha vovó, olha vovó!

Que vovó ela via ali? A materna morreu antes dela nascer. Uma pena, nem se conheceram. A paterna morava em outra casa. O irmão, mais velho, brincava sentado no chão. Nem ligava para a visita invisível.

Os pais, encolhidos e apavorados, nem se mexiam. Miravam apenas o chão. Não se atreviam a olhar para onde o dedinho pequeno apontava. Vai que vissem vovó? Nem pensar. Paralisados com a cena, até respirar estava difícil.

Se era vovó? Talvez. Provavelmente. Nunca saberei de fato. Então os mortos nos visitam? Vovó teve saudades e deu um pulinho para dar um oi e se apresentar à netinha? Por que não? Quem sabe? Ninguém garante que seja, nem que não seja. Mas se a gente que fica sente saudades. Por que os que foram não?

Quer outra história? Minha avó se chamava Carime. Mas, hábito antigo, libaneses adotavam nomes abrasileirados para facilitar a comunicação. Ela virou Dona Carmem em três tempos. Gostava. Era trabalhadora, honesta, simpática, divertida, valente. Criou, sozinha, três filhas.

Era querida. Diria que até famosa. Pois Dona Carmem partiu dessa para a melhor. Se foi de repente? Qual morte não é de repente? Todas são. Todas nos pegam de surpresa, por mais moribundo que o sujeito estivesse.

 

A gente acha que vai ficar para semente. Difícil se imaginar como barco vazio ancorado num cais. Apesar de doente, ninguém conta com a partida. A gente sempre acha que, sei lá, talvez com a gente seja diferente. Ou pelo medo do que tem, ou não tem, pela frente, a gente se esforce em ir ficando por aqui mesmo.

Dona Carmem tinha comprado um liquidificador. E a morte, essa senhora apressada, não deu tempo dela quitar a dívida com a vizinha.

Dona Carmem, tão honesta, morreu devendo à vizinha. Virar caloteira e defunta ao mesmo tempo? Era inaceitável para ela. Isso não ia ficar assim.

Como boa libanesa, Dona Carmem era negociante. Nem tenho dúvidas: mexeu seus pauzinhos no céu, barganhou, pechinchou. Deu seu jeito e desceu.

Antes da missa de sétimo dia, um casal amigo chegou na casa da filha. Vinham sem graça. Cara de quem tem medo de estar fazendo besteira e não sabe se deve falar. A mulher catucou o marido.

– Fala.

Ele muito sem jeito falou. Pois tinha sonhado com Dona Carmem. Sonho rápido, de quem não tem muitos créditos no celular celeste. Quase telegráfico:

– Manda as meninas irem no jirau. E pagarem à Dona Dadá.

O jirau era uma espécie de sótão de pobre. Nele: o liquidificador. As meninas entenderam o recado. Pagaram Dona Dadá. Dona Carmem não voltou mais, que se saiba.

Podia contar mil e uma histórias. Quem é que não tem as suas? Quem nunca sentiu um cheiro antigo no ar? O coração apertar? Umas lembranças que pulam do nada? Já ouviu vozes de dentro? Uns conselhos sem motivo? Uma ordem vinda de não sei onde E percebeu que era batata?

 

A gente recebe avisos. Alertas, sugestões. Muitas vezes faz ouvido de mercador. Ou se embaralha e não entende, atropela, passa por cima. Depois do acontecido é que vai entender que fez besteira. Mas que foi avisado, seja lá por quem for.

Eles existem. De alguma forma estão por aí. Não para assombrar. Para ficar perto. Para matar saudades. Para dar uma ajudada. Proteger, alertar, ver se a gente toma jeito. Há quem diga que são processos mentais. Intuição. Sei lá.

Eles estão por aí. São rumo onde tudo é breu. Nos sopram esperança quando a vida ameaça ruir. Há quem ache que são anjos, santos, entidades, amigos de outro andar. Acho que é tudo isso junto. Sinto cheiros, presenças, afetos. Não me importo com nomenclaturas. Se for para o bem, são bem-vindos. Recebo de braços aberto.

Já não temo mais os mortos. São os vivos que me assustam ultimamente.

Leia mais: http://extra.globo.com/mulher/um-dedo-de-prosa/anjos-intuicao-ou-dicas-do-alem-16711574.html#ixzz4DuDQx1va

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Mônica Raouf El Bayeh é psicóloga e professora e mãe do Pedro e da Maria