A voz do outro lado era irônica e se divertia antevendo meu tormento. Famílias têm dessas coisas. Conseguia sentir o prazer sendo destilado do outro lado da linha:

– Tem comido muita folha?

– Em dois dias, o equivalente a cinco cadernos universitários de dez matérias.

Essa era eu num SPA. Pela primeira vez em minha longa trajetória de gorda. Um amigo estava inaugurando um. Me ofereci como gorda experimental. Ele aceitou, nem acreditei. Era um presente dos céus.

Dezesseis anos olhando para baixo, contando cabeças de crianças para ver se estavam todos ali, se estavam bem, se não precisavam de nada. Tinha esquecido o caminho de volta para mim. Já não sabia mais me olhar. O tempo passou. Agora os filhos é que olham para baixo para falar comigo.

Mas meu olhar ainda não tinha me achado de volta. Já nem sabia como ter tempo, escolher o que eu preferia, ser minha prioridade. Seria uma descoberta.

Comuniquei a decisão à família. Ficaram felizes? A mente humana é ambivalente, crítica e ácida. SPA? Os mais corajosos falaram, os menos ousados apenas pensaram. Quase como uma história em quadrinhos podia ver o balão acima das suas cabeças:

– Ih, não vai aguentar mesmo.

– Uma vida inteira de gorda, acha que vai resolver com uma semana de SPA?

– Ela está achando que vai ter um monte de comida.

– Vai ter coragem de largar os filhos?

– Pelo tanto de vezes que vai para o hotel, deve ter ganho por milhagem…

Não foi por milhagem. Mas bem que podia ter sido. Gostei da ideia, fica aqui a sugestão. Sim! Larguei os filhos e bem feliz! Férias mais que merecidas! E não. Nunca me iludi achando que SPA era milagreiro. Apenas sentia que merecia essa oportunidade.
Minha filha sugeriu levar muamba. Uns biscoitinhos, uns chocolates. Insistia que eu ia precisar. Não, sem tráfico! Ia de cara limpa.

Se era para sofrer, que fosse direito, com dignidade! Talvez tivesse crises de abstinência. Mas ia pagar para ver. Fui de peito aberto e cara limpa.

O inimigo dormia ao lado. Minha amiga de quarto trouxe chocolates. Me deu três. Recusei, quis devolver. Ela não aceitou. Era para comemorar seu aniversário. Sim, comemoremos! Podíamos colocar uma velinha numa alface! Espetávamos numa maçã! Cantaríamos parabéns! Mas sem muamba! E os chocolates foram para o fundo da mala. Os meus e os dela.

Devo admitir que MEDO era o que começava a tomar posse de minha alma. Em meus piores pesadelos me imaginava desesperada de fome atacando a grama do caminho, disputando espaço com os cavalos e as vacas. Sobreviveria?

No SPA usavam algumas frases de efeito:

– Eu gosto! Eu posso! Eu consigo!

E “eu minto” entra onde mesmo? Porque de verdade, não era nada disso que eu sentia no início. Mesmo eu não gostando, não querendo, achando que nem podia, estava ali e ia tentar. Meu lema era: tamu junto no alface!

Mudam o nome das coisas para ficar mais chiques? O que na minha infância era vitamina, agora se chama shake. Tentei enganar uns garçons para ver se conseguia repetir. A equipe bem treinada e minha cara já manjada dificultaram o processo. Se voltar, por conta da milhagem, levo uma peruca loura. Pego um shake como morena, outro em versão loura. De cara já garanto dois.

Fome eu não sentia. Queria repetir só por vontade mesmo. Olho gordo voraz. O velho hábito que empoeirou e não serve mais. Mas continua, grita, esperneia e exige, como criança mimada. E a gente cede. É pena. Com uns dias de SPA, o segundo shake já não caberia. Mudei. É preciso não repetir o que não é necessário. Nem o shake, nem o que já não serve mais. Descobri mais essa.

Caminhada até a horta, Pilates, aerofunk, hidroginástica e yoga. O que eu não faria em um mês, junto em um só dia! Resultado: minhas pernas já não me obedeciam mais. Se falassem, gemeriam. O legal? Eu consegui! E me senti mais viva por isso.

E o tal do suco verde? Enquanto assistia ao preparo do bicho, eu pensava: eu não tomo isso nem morta. Dá medo. Assustador à primeira vista. Tem que ser muito macho para provar aquele copo cheio de capim moído. Olha que verde é minha cor preferida. Mas em forma de suco?

Provei em nome do processo de detox. De verdade, nem é tão ruim. Achei até bem tomável. Limpeza profunda, faxina geral? Faxinemos! Entrei de cabeça. Dada a precisão do momento, botei o suco para dentro. E pior é que gostei.

Não sei se pelo suco ou pelo todo, me surpreendi com mudanças. Uma coleção de pedras nos rins resolveu se retirar de meu interior. Partiram várias. Sem dor. Surpreendente. Vinha mesmo juntando umas pedras velhas que nunca me foram úteis.

Vida não é problema, nem pedra no caminho. Vida é quebrar pedra e encarar desafios. Vida não é só o que eu gosto, o que eu posso, o que eu quero. Vida é mais, é ir além. Vida é muito desaforada. Uma mão na cintura. A outra com dedo apontado para a frente, ela te diz: vai! E você que se vire para ir. Dessa vez, eu fui!

Volto sem culpas, apenas responsabilidades. Vou dizer: não é fácil. Faz parte. Rapadura é doce, mas não é mole. Aliás, rapadura é coisa que passa longe num SPA.

Se eu emagreci? Sim. Mas nem é o mais importante. Afinal é um SPA, não fada-madrinha. Não esperava nenhum Extreme Make Over. Em uma semana não se desfaz o construído de uma vida inteira. Mas se repensa. Já é um bom recomeço. Estou de volta. Nem magra, nem linda. Mas outra. Refeita e renovada!

Emagreci em ideias gordurosas. Daquelas que contaminam a gente por dentro, entopem as veias da coragem, obstruem o caminho do livre fluir. As piores e as que mais machucam. Superar metas, mudar padrões. Transmutar a si mesmo: esse é o maior desafio.

Aos que cuidaram dos meus para que eu pudesse ir, aos os que cuidaram de mim para que eu voltasse melhor: toda a minha gratidão!

E seja lá como for: Tamu junto na salada para o que der e vier.

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