Escreva cem vezes. Ou até você acreditar:

– A culpa é sempre do professor.

Não era para ser assim. Mas por aqui, ao invés de maçãs, eles ganham porrada. Críticas. Censura, mordaça. Ataques de todo tipo. Essa é a dura vida de um professor.

Por isso li, incrédula, o texto de Cláudio de Moura e Castro na revista Veja. Ainda procurei para ver se era matéria paga pela prefeitura ou pelo estado. Achei estranho que alguém realmente acreditasse nesse tipo de raciocínio.

Imagino que, talvez por desconhecimento da realidade. Da situação fora de gráficos e números. Então tomo a liberdade de lançar aqui um desafio. Saia da sua escrivaninha, meu senhor. Da sua poltrona confortável. Do seu escritório refrigerado onde só entra quem é convidado e aceito. Entre numa sala de aula.

Nas particulares, você vai conviver com um conforto até semelhante ao seu. Porém com alunos que chegam completamente sem limites. Que acham que eles é que mandam, inclusive em você. Que pensam e falam:

– Onde está escrito que eu tenho que respeitar professor?

E não respeitam mesmo. Esteja preparado para ser desrespeitado. Você vai disputar a atenção com os Iphones e aparelhinhos mais modernos. Vai perder a disputa. Vai falar para meia dúzia de interessados, numa sala lotada de mais de quarenta. Onde uns três dormem. Os outros se viram de costas para você para conversar.

Todos sabem que além de vinte e cinco alunos o rendimento cai. A qualidade de atenção não é a mesma. Que se danem todos: alunos que perdem em qualidade. E os professores vão se matar para serem ouvidos. Importa que, se de quatro turmas se faz três, certamente o lucro é muito maior. É o que basta. Ponto. Encerrada a questão.

Nas escolas públicas, você vai conhecer pessoas bem influentes. O filho do dono do tráfico, a que namora o dono do tráfico, o cara que faz tráfico na sua escola, o que rouba de bicicleta, o que tem um revolver de papelão para assaltos em lugares pouco iluminados. O que entende tudo sobre seu cordão de ouro. O que te oferece um celular melhor.

A menina que já trás outro na barriga. A que quer ser modelo. A que quer ser médica e você torce para que seja.

Os que, na segunda, já vêm com a mesma blusa de sexta. Sem lavar, só que pelo avesso. O que vem de chinelo porque não tem dinheiro para tênis. O que vem para a merenda porque em casa não tem comida.

Além da mesma superpopulação de alunos por turma, existem situações bem piores. Há a falta de condições de trabalho. Não há porteiro. Não há quem limpe. Não há material para você trabalhar. Já vi, e não foram poucas vezes, professores comprarem do próprio bolso. Deve ser porque ganham mesmo muito bem, não é? Só pode.

Acrescente a essa situação a falsa inclusão. Alunos com vários tipos de deficiência jogados em turmas imensas. Meninos com todo tipo de dificuldades emocionais, físicas, de aprendizagem. Todos juntos, amontoados como coisas. Como números. Como lixo. Já imaginou a angústia de um professor ao lidar com isso?

Como se não fosse o bastante, o enorme salário do professor não lhe permite ter um só turno de trabalho. Vagam loucos entre escolas. Os empregos vão se somando: dois, três, quatro. Num vai e vem infinito de uma para a outra. Porque o intervalo entre as escolas não lhe dá tempo nem de almoçar. Fazem por aventura, claro. Não por necessidade, já que ganham muito bem.

Visite um professor. Pode ser de qualquer matéria. Mas se o pobre for de português e redação, melhor nem ir. As montanhas de provas, redações e trabalhos se espalham pela casa. Talvez nem dê para você sentar. Não espere um cafezinho. Além de você não estar merecendo, ele não vai ter tempo de fazer.

Professores são seres zumbis. Não têm noites de muito sono. Nem fins de semana sem trabalho. Leem, preparam aulas, elaboram trabalhos e provas, corrigem trabalhos e provas, postam as notas na internet, elaboram provas de segunda chamada, provas de recuperação, corrigem todas, mais aulas, mais exercícios, mais planejamentos…

São seres soterrados em pilhas de cobranças e trabalhos. O trabalho sem fim. O desgaste constante. Eles têm férias maiores que a sua? E os juízes que têm dois meses, o que você fala? Eles se aposentam mais cedo que você? E a aposentadoria dos políticos todos que você nem pensa a respeito?

Eles têm direito a uma falta por mês? Trabalhando desse jeito, você ousa achar que eles não adoecem? Ter a falta do mês não quer dizer que faltem. Quer dizer que, só podem adoecer uma vez por mês e olhe lá.

O texto culpa os professores. Qual a novidade nisso? A culpa sempre é dos professores! Eles é que são os responsáveis por gastos desnecessários da máquina pública. Os professores, sempre eles, são os grandes responsáveis pelas misérias do município e do estado.

Provavelmente eles é que nos levaram e esse estado de falência. Que feio, professores! Vocês não se envergonham? E ainda se acham no direito de fazer greve, já não estão ricos o suficiente? Ainda reclamam de qualidade de ensino? São uns insatisfeitos. Reclamam de barriga cheia.

Também é dos professores a culpa pelo elevado número de repetências que sobrecarrega o orçamento. Um professor poderia alegar a seu favor que os alunos apresentam muitas dificuldades. Que, apesar deles pedirem socorro, não há para onde encaminhar as crianças para que tenham o atendimento adequado. Nós não vamos acreditar. Ok?

Nada disso nós vamos ouvir. Preferimos acreditar que a culpa é do professor que só pensa em dinheiro, em greves e em se aposentar logo. Lógico, imaginamos que eles é que não se esforçam, não ensinam direito, e só ficam pensando em cruzeiros caros e viagens à Europa enquanto tinham que estar empenhados em dar aula.

A sorte é que professor é pau de dar em doido. É maltratado por todo mundo. É agredido pela polícia nas ruas. Apanha, corre, sofre. Mas é antes de tudo um forte. Quando você acha que acabou com ele, ele já está de pé na sua frente. Inteiro. Com escoriações internas e externas. Mas pronto a continuar a luta.

Por isso o texto me doeu. Pela enorme injustiça com uma classe tão sofrida e honesta. Entre na sala de aula. Passe o que eles passam. Tenha a mesma garra, a mesma paixão, o mesmo amor pelos que mais ninguém consegue amar.

Eles ganham mal. São desvalorizados. Se acabam na correria. Perdem a voz, a juventude, a energia. Mas não largam o sonho. É precisamente isso que dá tanto medo aos governantes, em geral. Por isso querem lhes amordaçar. Por isso é preciso que rápido se aprove a Escola sem partidos. Para calar esse povo.

Eles são a grande esperança dos honestos. E o grande risco dos corruptos. Por isso são mal remunerados. Para ver se morrem ou desistem. Mas não. Esses professores Gremlins se multiplicam. E multiplicam seu saber. Essa é a grande riqueza dessa gente. E a força que mostra que viver é perigoso, mas vale a pena.

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