– O nascimento de um filho é uma revolução: o eixo da vida muda.

– O foco não somos mais nós mesmos.

– Viramos morada. Alimento. Chupeta. Transporte. Google Tradutor. Modelo. Companhia. Segurança.

– Somos mãe. Somos quase tudo.

– Como galinhas com pintinho, seguimos de perto cada um deles. Colocamos debaixo da asa quando preciso. Ficamos de olho. Nosso olhar é todo deles.

– Enquanto forem pintos, seremos galinhas.

– Talvez sejam sempre pintos para nós.

– De qualquer forma, a asa está sempre aberta.

– Limpamos todo tipo de nojeiras que a criatura produz. E continuamos completamente apaixonadas por ela.

– Aí, eles começam a mastigar, andar, falar e arrumar amiguinhos.

– A tia da escola é quem sabe a matéria. Nossa explicação já não serve. Ainda dizem que a gente não sabe de nada.

– E você vai aprendendo a gostar da tia, dos amiguinhos, das paqueras que te chamam de tia.

– É trocada e ainda gosta? Não é traição?

– Não há traição! Mãe é Carrinho cheio de supermercado: sempre tem um jeito de enfiar mais alguém.

– Sabe por que? Mãe é soma. Mãe é processo de adição.

– Não se trata de uma simples troca de jogadores no campo: Sai mãe, entra professora. Sai mãe entra namorada. É mais.

– As trocas são a prova viva de que fizemos um bom trabalho.

– A criatura tem a capacidade de estabelecer vínculos positivos? Aprendeu com quem?

– O sujeito que hoje virou homem, e segue seu rumo na busca da felicidade, foi erguido por nós!

– Frase por frase, olhar por olhar. Essa é nossa engenharia.

– Em algum momento, a gente diz ou escuta uma frase dessas:

– Mãe, vou me mudar.

– Quem está de mudança, no calor da euforia, nunca imagina o que sente quem escuta.

– Escutar uma frase dessas tem o efeito de uma freada brusca em trem cheio.

– O processo de ir se desgarrando é estranho para quem fica.

– A casa mais vazia, silenciosa. O horário que a porta abria e não abre mais.

– Levou casaco? Será que comeu direitinho? Vai conseguir acordar sozinho sem os cinco minutinhos?

– Mais difícil ainda é lidar é com a falta de poder sobre a casa alheia que agora não é nossa. Sobre a vida que sempre dependeu da sua e agora já não está sob controle. Nem sob as nossas vistas.

– Não pense que relato o sentimento de uma mãe tirana, dominadora ou egoísta.

– Não se trata de ser uma mãe tirana. Se trata de ser mãe. Quem é e quem teve entenderá o que digo.

– No embate pelo poder, mães amaciam. E filhos crescem. Se afirmam no que querem e aprendem a se posicionar na vida.

– De repente, no susto, eles desgrudam e mudam.

– O vazio que fica exige reconstrução. Como casa nova interna que precisa ser mobiliada.

– Mãe é só uma! Sem dúvida. Deus em sua imensa sabedoria percebeu que ninguém aguentaria mais do que isso.

– Mãe é mãe? Não questiono.

– Mãe é para sempre? Sim. Mas a cada dia me convenço mais de que nossa verdadeira função é saber ir saindo de cena e permitir que os filhos adicionem outras pessoas em nosso lugar.

– Ser substituída dói. Não minto.

– Mas a sensação do trabalho bem feito compensa.

– Eles estão ali me substituindo porque meu trabalho foi bem feito? Bingo!

– Já posso elaborar o luto de ser substituída. Ser feliz de novo em novo eixo e, quem sabe, finalmente voltar meu olhar de novo para mim sem culpa.

– Ser mãe é exercer a delicada arte de sobrar.

– E ramificar em amor.

Mônica Raouf El Bayeh

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