No desespero dos que já não tem saldo, consulto o extrato. Zerado. Ou vermelho, pior ainda.

Não há salário. Como esperam que eu me alimente, me locomova, sobreviva sem o meu salário? Como pago as minhas contas? Como ousam querer que eu trabalhe sem me dar condições?

Já se imaginou sem salário? Contas vencendo e você impotente? Filhos pedindo as coisas e você sem respostas? Pois os funcionários do Estado do Rio de Janeiro estão assim. Há meses sem saber se vão ter salário. Recebendo parcelado. Com atraso. Ou até sem salário nenhum. Já se imaginou nessa situação?  É desesperador.

A justiça determina que o pagamento seja feito até o terceiro dia útil. Hoje é dia 13. De dezembro, mês difícil, cheio de gastos, desejos e pedidos. E o salário cadê? Nem fumaça. Não há dinheiro. É o que dizem. Ok.

Então me expliquem para onde foi o dinheiro? Em que ralo? Em que bolsos? Porque no meu não caiu nada. Eu não ganhei anel milionário. Não fiz trato com a Odebrech. Não andei de helicóptero com o dinheiro público. Não sou dona de mansões. Então acho que tenho o direito de saber onde foi o meu dinheiro.

Voltamos à escravidão? Na época da escravidão, os mesmos senhores de engenho. A mesma fartura e abundância para um lado só. A mesma miséria dos pobres explorados. O mesmo lucro voraz em cima dos que trabalhavam.

São espertos os senhores barões. Dividem para comandar melhor. Pagam uns, enrolam outros. Sonegam salários aos aposentados que já não têm como fazer greve. Assim vão dispersando o povo.

Farinha pouca, meu pirão primeiro. Se já tenho o meu no bolso, os outros que se danem. Ainda é assim que o povo pensa. Não percebe que a questão é geral. Inocentes. Iludidos. Quem bate não é melhor que quem apanha. Feitores escravos do mesmo barão. Na mesma batalha. Mesmo desrespeito. O risco é de todos. Apenas questão de tempo.

Escravos rebeldes apanhavam. Trabalhavam em troca de coices e chicotes. Nada mudou. Apanhamos ainda, em praças públicas. Em balas que saem atiradas de igrejas invadidas. Em sprays de fumaça que agridem até quem nada tem a ver com o assunto.

Somos arrastados pelas ruas como antigamente. Agredidos, machucados, abatidos como cães vira-latas. O que mudou? Os escravos tinham a senzala. Nós, sem o dinheiro do aluguel e do condomínio, estamos é na rua. Os escravos tinham alimentação. Já experimentou ir ao mercado e pagar com paciência? Compreensão? Não pagar? Pois é. Nós estamos à mingua.

Somos livres? Que bizarra ilusão. Somos todos escravos de senhores de engenho vorazes. Que acabaram com tudo o que era nosso por direito. Que dizimaram com a saúde, a educação, a segurança.

Que não nos enxergam com um mínimo de respeito. Escravos, sim. Não há mais cor. Sofremos todos o mesmo pouco caso. A mesma falta de consideração. O mesmo abandono.

Escola do filho vence dia 1. Plano de saúde e aluguel, dia 5. Condomínio, dia 7. Cartão de crédito, dia 10. As multas todas quem paga? Diga à sua faxineira que não tem como pagar e espere para ver se ela volta.

Não tem dinheiro? Cadê os impostos que eu nunca deixei de pagar? O que você vai fazer, governador, quando os funcionários sem salário deixarem de pagar seus impostos? Vai ter paciência também? Ou paciência é só para a gente?

O povo que trabalha em regime de escravidão, o que espera para parar? Para reagir? Para dar um jeito de mudar essa situação?

Quando ninguém nos ampara, quem brigará por nós senão nós mesmos?

Mônica Raouf El Bayeh

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